Transcriação da palestra A animagogia e a ilusão da morte

 

Palestra realizada no dia 16 de maio, na Fundação Educacional São Carlos.

 

Existe um conto indiano que narra a seguinte história:

Um discípulo procura o seu mestre e lhe pergunta:

_ mestre, qual é o seu segredo para nunca se enfurecer e ser sempre amável?

E o mestre lhe respondeu:

_ não sei se posso falar sobre o meu segredo, mas eu sei qual é o seu...

E o discípulo curioso, perguntou:

_ e qual é o meu segredo?

Compenetrado, o mestre disse: você vai morrer em uma semana.

Assustado com as palavras do mestre, o discípulo procurou, na semana seguinte, tratar os amigos e os familiares com muita afeição e, no sétimo dia, deitou-se em sua cama e pediu que chamassem o seu mestre. Quando este chegou, o discípulo lhe disse: “abençoe-me, sábio mestre, pois estou morrendo”.

Após abençoar o discípulo, o mestre lhe perguntou: “e como você passou a semana? Brigou com a família, com os amigos?”

E o discípulo lhe respondeu: “obviamente que não. Eu os amei intensamente.”

Após ouvir isso, o mestre lhe falou: você acabou de descobrir o meu segredo. Eu sei que posso morrer a qualquer momento, por isso, procuro ser sempre amável com todas as pessoas de minhas relações.”

Curiosamente, muitas pessoas que passam por experiências radicais, como são as experiências de quase morte (EQM), mudam profundamente sua forma de viver, passando a amar e a valorizar muito mais seus familiares, o meio ambiente e as demais pessoas com as quais se relaciona. Essa mudança de sensibilidade é conhecida como metanóia, na qual uma atitude egoísta diante dos fatos é substituída por uma atitude amorosa.

O egoísmo é fruto, basicamente, do medo da morte. E a maioria das pessoas teme a morte porque possui uma consciência equivocada, acreditando que a morte é o oposto da vida. Mas, na verdade, o que se opõem à morte é o nascimento.

A vida está além da morte e do nascimento. Ela antecede o nascimento e continua além da morte. O que nós conhecemos por vida é apenas um de seus ciclos, formado por um nascimento e uma morte. Vamos, nesse encontro, chamar esse ciclo de existência.

O egoísmo se alimenta do medo da morte e vice-versa. Todos nós queremos permanecer vivos e como acreditamos que a morte é o oposto da vida, temos medo de morrer e lutamos arduamente por aquilo que acreditamos ser a vida: a matéria. Acumulando bens materiais, buscando a felicidade no consumo ou na posse de outras pessoas, acreditamos que isso nos faz vivos e nos afasta da morte.

Todos desejam viver eternamente. E é justamente isso o que acontece. A vida é realmente eterna. Apenas cada existência, ou seja, cada ciclo de nascimento e morte, é finito.

Em nossa palestra, vamos falar sobre a morte, mas não do ponto de vista das religiões, e sim, da ciência não-oficial, ou seja, daquela que ainda é marginal no meio acadêmico, sobretudo no Brasil, e que já aceita a hipótese da continuidade da vida após a morte física.

 Aliás, evidências desse fato podem ser encontradas ao longo da história e nas mais diferentes civilizações. Apesar de muitos católicos ou evangélicos negarem o chamado intercâmbio com os seres incorpóreos, esse fato é registrado inclusive, na Bíblia, no livro II de Samuel, no qual o ex-rei Saul conversa com o espírito de Samuel através da intermediação de uma pitonisa, nome que identificava as médiuns ou sensitivas naquele contexto cultural.

A psicologia transpessoal, por exemplo, estuda cientificamente esses registros de comunicação com os seres incorpóreos. Além desse fato, ela estuda também as chamadas EQM (experiências de quase morte), as projeções astrais (que são saídas conscientes do corpo físico e a locomoção tanto pelo espaço material como naquele chamado de astral) e as experiências de regressão de memória às vidas passadas.

Todos esses fenômenos humanos, que nenhuma relação possuem com as religiões, fornecem evidências de que a vida não se extingue com a morte física. A maior parte das pessoas que passa por tais experiências diz perder o medo da morte e, o que é mais importante: passa a valorizar ainda mais a experiência na Terra, ou seja, a sua existência neste mundo material. Ao invés da apatia, da melancolia e do hedonismo, essas pessoas afirmam que passaram a dar mais atenção à família, deixaram de brigar por picuinhas, cuidam com mais amor do meio ambiente e dos animais, entre outras coisas. Em suma, amam mais e são mais felizes, sem tantas ambições ou desesperos, assim como o mestre da história indiana que contamos no inicio da palestra. É como se tomassem consciência de que o mundo após a morte é o real, o verdadeiro lar e que este que vivenciamos atualmente é uma passagem ou uma realidade impermanente, onde não estamos por acaso, mas para aprender uma lição: aprender a colocar em prática o amor e a felicidade incondicional.

Curiosamente, essa consciência que nasce a partir dessas experiências vividas vem ao encontro das descobertas cientificas atuais. De fato, o mundo material parece ser uma grande ficção, pois tudo o que chamamos de matéria não passa, em sua essência, de bilhões e bilhões de átomos, onde o que mais existe é vazio e não matéria, como podemos ver nessas ilustrações que nos ajudam a compreender porque esse mundo que vivenciamos não é o real.

Vamos imaginar que somos físicos quânticos estudando o interior da matéria. Então, vamos entrar dentro da matéria até chegarmos nos átomos e, em seguida, vamos entrar dentro deles e dentro de seus núcleos para ver o que vamos encontrar.

Comecemos por essa bola de basquete. Vamos entrar dentro dela. Essas bolas brancas são os átomos, a menor parte de qualquer objeto material, seja o nosso corpo físico, a bola de basquete ou até mesmo as paredes que nos envolvem. Em suma, toda a matéria é formada por átomos.

Agora, vamos entrar dentro dos átomos. Eles que pareciam sólidos, agora vão se transformando em algo parecido com nuvens. E essas luzes brancas são os elétrons que circulam em torno do núcleo a uma velocidade de aproximadamente 940 km/s. Observem a semelhança com o sistema solar. Aqui, os planetas giram em torno do sol. No átomo, são os elétrons que giram em torno de um núcleo. Mas em ambos os casos, e respeitando suas respectivas escalas, o que mais existe dentro deles é o vazio.

Vamos imaginar como seria uma foto de um átomo, congelando os elétrons. Nesta imagem, podemos ver o núcleo do átomo, que é esse ponto amarelo e as posições em que cada elétron se encontra. Observem como dentro de cada átomo existe muito mais área vazia do que ocupada por matéria.

Em suma, todo e qualquer corpo material é apenas isso: Bilhões de átomos que, por sua vez, são formados por bilhões de pequenos núcleos e elétrons circulando no entorno destes. Mas será que o núcleo do átomo é a menor parte da matéria? Os físicos quânticos, ao estudá-lo, descobriram que dentro dele só há energia. A partir dessa descoberta concluíram que, na essência, a matéria não existe. Pois tudo o que chamamos de matéria deriva de uma mesma fonte energética. Tudo é feito de energia.

Essa conclusão vem ao encontro das sabedorias milenares do Oriente, que sempre afirmaram que a matéria é uma grande ilusão.  Mas por que ao invés de átomos e elétrons nós enxergamos e nos relacionamos com mesas, cadeiras, árvores, corpos físicos e outros objetos materiais?

transcriação da palestra a Animagogia e a ilusão da morte (parte II)

A resposta nós vamos encontrar nos estudos atuais sobre o cérebro. Apesar dele, na essência, também ser um aglomerado de átomos e elétrons, ele tem para os seres humanos e para os demais animais um papel muito importante. É ele que transforma as diferentes ondas visuais e as demais ondas captadas pelos sentidos em formas materiais, em percepções e em sensações.

Assim, tudo aquilo que chamamos de realidade não passa de uma imagem e de percepções formadas pelo cérebro a partir de diferentes ondas energéticas captadas pelos sentidos.

Vamos compreender como o cérebro cria a imagem de um pequeno recipiente com frutas. As ondas luminosas chamadas de fóton partem do objeto e atingem o cristalino do olho e, em seguida, são focadas na retina. Depois, elas se transformam em pulsos elétricos que seguem por nervos e neurônios até uma área especifica do cérebro onde a imagem será criada. Neste outro exemplo, podemos ver a imagem da vela criada dentro do cérebro daquela pessoa. O cérebro é o instrumento que fará a decodificação daquele monte de átomos para podermos enxergá-los na forma de vela.

E isso acontece não só com as percepções visuais, mas com todas e quaisquer percepções. O olfato, a audição, o paladar e o tato também são criados pelo cérebro. O papel dos sentidos é o de captar as ondas energéticas que estão no ambiente, enquanto o cérebro os decodifica em formas materiais, em percepções e em sensações.

Vamos usar um outro exemplo para esclarecer. Alguém consegue ver as ondas emitidas pela TV globo ou pelas outras emissoras de televisão? Não. Porém, essas ondas estão circulando aqui dentro e se ligarmos uma televisão com uma antena, nesse exato momento, será possível captar essas ondas e transformá-las em imagens e em sons audíveis. A antena funciona de forma similar aos nossos sentidos e a televisão de forma similar ao nosso cérebro.

Mas se você ainda não se convenceu que a realidade não passa de ondas e energias, acreditando que real é tudo aquilo que pode ser visto e sentido, eu lhe pergunto: o sonho é real? Nele também não vemos formas materiais e não temos percepções e sensações? Como tudo isso é criado? Enquanto estamos vivenciando um sonho, nós temos consciência que estamos sonhando ou somente ao acordarmos é que podemos afirmar que sonhamos?

Em suma, tanto a experiência vivenciada durante o sonho como essa experiência que chamamos de realidade apenas existem dentro do nosso cérebro. Não há diferença alguma entre elas. Por isso, podemos fazer a seguinte analogia. A Morte é similar ao despertar de um sonho. Quando acordamos, tomamos consciência que tudo aquilo que vivenciamos durante o período em que estávamos deitados em uma cama era um sonho. Assim será ao morrermos. Gradativamente vamos tomar  consciência que tudo aquilo que vivenciamos quando estávamos ligados ao cérebro e ao corpo físico foi mais uma existência humana que se encerrou.

Em suma, o que chamamos de morte é apenas o desligamento de nossa consciência daquelas imagens e percepções criadas pelo cérebro. Por isso falamos que a morte não é o oposto da vida, mas o oposto do nascimento.

 Em linhas gerais, o que apresentei para vocês é o trabalho que realizo sob o nome de Animagogia.  Através de uma abordagem cientifica e possibilitando experiências enriquecedoras ao participante, a Animagogia é uma forma de educação que visa despertar o ser humano para a vida eterna, para que ele possa superar a consciência da finitude.e também, o que é mais importante, a dor advinda por uma falsa consciência.

Vou terminar essa fala com uma frase que li, mas não me recordo o autor:

 

"Lembre-se que a dor é um mero alerta, não redime, não expurga nem resgata nada, apenas indica que algo está errado conosco, para que tomemos uma atitude."

 

Podemos dizer que o momento em que sentiremos uma dor (e aqui não me refiro apenas à dor física, mas também as dores morais, da consciência, da perda de um ente querido etc.) já estava escrito. Não pelo fato de tudo estar programado nos mínimos detalhes por Deus, mas porque nos desviamos de uma rota de luz e amor traçada por Deus. Assim, quando "saímos dos trilhos", recebemos um alerta. Porém, esse alerta, no caso, a dor, é apenas um sinal. Muitas pessoas dizem que devemos amar a dor, outras que devemos imaginar que a dor é uma punição ou castigo de Deus e outras dizem que ela nem existe, que é uma ilusão. Porém, a dor, como afirma o autor acima, é um sinal para que busquemos aquilo que está errado em nós. É o momento de parar e ver se não estamos sendo injusto com outras pessoas, se não estamos deixando de amar, de perdoar etc. Como diz o autor, é necessário tomar uma atitude. E, por atitude, entendemos uma ação interior, uma ação sentimental.

Assim, é hora de abandonar a atitude egoísta por uma amorosa; abandonar a atitude de passividade por uma pacífica; abandonar a atitude de desespero por uma de esperança. A metanóia, ou seja, a mudança de sensibilidade, faz com que a dor desapareça como por encanto. Mude sua atitude, mas não se conforme à dor.

Ela é apenas um sinal que Deus amorosamente permite que você sinta para mudar o rumo de sua vida. E a dor da perda de um ente querido também é um alerta. Quando compreendermos que não perdemos ninguém e que a vida não se extingue com a morte física, a dor desaparece. Podemos, obviamente, sentir  saudade daquele que retornou para o verdadeiro lar, como sentimos de um filho que vai estudar no exterior ou que se casa e vai morar em outra cidade, mas não mais aquela dor, aquela tristeza ou aquele desespero que nos afligia a alma quando ainda temíamos a morte, por não compreendê-la e aceitá-la plenamente.

Para encerrar, observe esse quadro e me diga: quantas bolinhas pretas existem nele? As bolinhas pretas são a morte. Observem que não existem pontos pretos. Eles são uma ilusão criada pelo seu cérebro. Em suma, o mesmo acontece com a morte. É apenas uma ilusão criada em seu cérebro...

Memória e Mediunidade II – reuniões com crianças

 

asamar_sc@hotmail.com

 

 

A história que vou contar hoje aconteceu no ano de 2003 ou de 2004, não me lembro mais. Naquela época eu não tinha o costume de registrar as ocorrências nas reuniões que não fossem técnicas, ou seja, para aprendermos com a espiritualidade as técnicas terapêuticas que colocaríamos em prática com encarnados e desencarnados, por isso não tenho informações precisas de quando esta experiência aconteceu.

A reunião mediúnica, daquela noite, seria com crianças. Muitos já ouviram falar ou já participaram, no meio umbandista, das chamadas “giras de criança”. Aqui, vários espíritos utilizando a postura simbólica de crianças se manifestam para auxiliar os consulentes. Para os necessitados, eles procuram transmitir confiança, paciência, esperança, alegria e paz.

Porém, o que vou narrar é uma experiência mediúnica diferente. Ela não aconteceu com espíritos que se manifestam como crianças, mas foi realizada com a presença de espíritos humanizados e encarnados que vivenciavam a fase infantil da existência, tendo entre três e cinco anos de idade, se não me engano.

Um dos problemas que as médiuns mães tinham eram os filhos pequenos. Muitas não tinham com quem deixar as crianças e reivindicavam que o nosso centro tivesse alguém que brincasse e cuidasse delas enquanto o trabalho mediúnico acontecia. Infelizmente, isso nunca aconteceu, por falta de recursos materiais e humanos. Mas, naquele dia, esse problema não existiria, já que as crianças foram convidadas para participar do encontro mediúnico.

Naquele tempo realizávamos reuniões semanais com a espiritualidade com o objetivo de aprender técnicas terapêuticas, auxiliar desencarnados presos ao Ego (que o movimento espiritista chama de “doutrinação”) e realizar experiências mediúnicas em geral. A reunião que vou abordar pode ser classificada nessa terceira categoria.

Até hoje nunca li em livros espíritas (escritos por desencarnados) ou espiritistas (escritos por adeptos da doutrina espírita) algo sobre reuniões similares a essa que tivemos a oportunidade e a satisfação de presenciar naquela noite.

Na véspera da reunião, um dos espíritos coordenadores do trabalho, que utilizava a postura de médico alemão, solicitou que as médiuns que eram mães levassem seus filhos para o trabalho daquela semana. Não nos foi explicado o motivo daquele convite insólito, o que gerou expectativa em todos, principalmente nas mães.

No dia da reunião, enquanto os participantes iam chegando, eu ficava só olhando e pensando: “isso não vai dar certo! Olha que bagunça que elas já estão fazendo... Quando entrarem na sala, tudo vai virar de ponta cabeça...”

Porém, assim que as crianças entraram na sala onde as experiências aconteciam, todas dormiram quase que ao mesmo tempo. Parecia que elas estavam sob efeito de calmantes, pois dormiam profundamente, em um cantinho da sala, enquanto o trabalho mediúnico acontecia como de costume.

Como eu era uma pessoa muito crítica e chata, comecei a pensar: “que bobagem está acontecendo! Mandaram trazer as crianças e agora estão todas dormindo... O que estes espíritos querem com isso?”

Ninguém sabia qual era a finalidade daquela reunião. Como acontecia, rotineiramente, as médiuns começaram a psicografar, a fazer desenhos etc. A única diferença em relação às outras reuniões, é que a sala tinha se transformado, naquele momento,  também em uma “creche”, onde várias crianças dormiam, sem atrapalhar o desenrolar da atividade mediúnica.

Porém, antes do encerramento da reunião, um dos mentores do trabalho se manifestou e disse que os espíritos que ali estavam transmitindo mensagens e desenhando, eram os próprios filhos das médiuns. Ou seja, aquelas crianças, ao dormirem, foram desdobradas e, recuperando a consciência espiritual, tiveram condições de enviar mensagens para o grupo, para os pais e fazer desenhos. Muitas das mensagens possuíam cunho filosófico profundo e alguns desenhos eram bem feitos, demonstrando que o espírito tinha domínio de técnicas de pintura.

Ou seja, a ilusão da encarnação estava sendo desmanchada diante de nossos olhos. Naquelas crianças que mal sabiam falar e que faziam uma bagunça “infernal”, estavam veladas almas sábias e experientes. Pelo teor das comunicações era possível tomar consciência de que o processo de encarnação é um jogo no qual uma das regras básicas é a ocultação do nosso real Ser.

Não preciso nem dizer que as mães começaram a chorar, emocionadas com o trabalho ali realizado. Eu, como sou muito racionalista, só fiquei tirando conclusões filosóficas da experiência. Mas, realmente, não há como negar que foi um trabalho muito sensível e, para os ali presentes, a comprovação de que a vida antecede e continua para além da atual existência corpórea.

Como nada acontece por acaso, alguma razão teve para aquelas mães merecerem participar de uma experiência animagógica tão profunda, descobrindo que escondidas naquelas ingênuas e encantadoras crianças que representam o papel de filhos, estão irmãos espirituais que já passaram por diferentes experiências na Terra ou em outros Orbes.

Pelo teor das mensagens foi possível perceber como a verdadeira consciência espiritual se encontra velada para a encarnação se processar naturalmente, sem que possamos desconfiar da realidade oculta por traz daquelas carinhas inocentes.

Crianças que no dia-a-dia fazem apenas rabiscos coloridos no papel, mostraram que sabem desenhar muito bem; outras que mal articulavam uma frase no estado de vigília, escreveram mensagens profundas, cheias de esperança e Fé. No dia que os educadores descobrirem que não estão diante de simples crianças, mas de espíritos eternos, que revolução poderão fazer no processo escolar!

A partir daquela experiência, quem estava presente, possivelmente, não tem mais dúvidas de que a vida não se resume à materialidade e, o mais importante, que nossa condição natural é como espíritos e que a existência humanizada serve apenas para provarmos que somos capazes de passar por vicissitudes (alternâncias de experiências agradáveis e desagradáveis) sem deixar de amar universalmente.

 

São Carlos, 08 de março de 2008.

 

 

Memória e Mediunidade I: Do Reiki a Terapia Vibracional Integrativa (TVI)

 

asamar_sc@hotmail.com

 

 

Em 1996, eu trabalhava no SESC Interlagos, na cidade de São Paulo, como animador cultural. Naquele ano, na unidade Carmo aconteceu um evento para a Terceira Idade e uma das atividades era com o Reiki. Esse foi o meu primeiro contato com essa técnica de cura surgida no Japão, no início do século XX. Porém, foi somente em 2001, quando eu já morava em São Carlos que resolvi conhecer melhor essa técnica e fui fazer um curso com um mestre de Reiki. Cheguei a fazer os níveis I, II e III do Reiki tradicional e o nível I e II do chamado Karuna-Reiki.

Acho que estávamos nos últimos meses de 2002 quando pensei em fazer um outro curso, dessa vez para se tornar mestre de Reiki. Apesar do susto que levei quando soube que ele custava, na cidade de São Carlos, cinco mil reais, resolvi que faria esse “investimento”.

Mas o destino é inexorável. Poucas pessoas acreditam na história que vou contar, mas ela aconteceu exatamente um dia antes do combinado para eu pagar o tal curso para se tornar mestre de Reiki. Ou seja, um dia antes de quase jogar no lixo cinco mil reais Deus me preparou uma agradável surpresa.

Naquele dia, apareceu no local onde eu aplicava Reiki (o Centro de Estudos e Vivências Cooperativas e para a Paz), uma casa espiritualista em São Carlos onde, além do Reiki, havia aulas de Yoga, Tai-chi-chuan, Meditação e outras atividades psico-corporais, um rapaz que se apresentou como médium kardecista e dizendo que um espírito gostaria de conversar comigo sobre o Reiki.

Achei aquela conversa insólita, pois nunca tinha escutado alguém comentar algo similar. Mas como não é todo o dia que um espírito manda um médium ir atrás de alguém, não poderia mandá-lo embora. Aceitei conversar com o espírito e fomos até a sala onde eu atendia. O rapaz pediu para eu ficar calmo e, em poucos minutos, incorporou um espírito que se identificou como um médico alemão que desencarnou na segunda guerra mundial. Disse também que era um dos mentores espirituais da Associação Médico-Espírita (AME) e um singelo trabalhador da falange de Bezerra de Menezes.  

Tudo isso para mim era grego. Não tinha a mínima idéia do que era a tal Associação Médico-Espírita e nem quem era Bezerra de Menezes. Mas comecei a me interessar quando ele disse que éramos velhos conhecidos, que eu havia sido exilado de Capela, que eu era “médium de cura” e deveria esquecer a história de fazer o tal curso para virar mestre de Reiki. Segundo ele, ninguém precisava pagar para aprender a doar energia, ainda mais eu que a tinha em excesso. Falou que os símbolos representavam ensinamentos morais (que ele me ensinaria), mas que eram desnecessários para se enviar energia. Confidenciou-me que, para se doar energia, era necessário apenas vontade, pensamento elevado e muito amor. Todo o resto era ignorância ou charlatanismo.

No dia seguinte eu liguei para a pessoa que me sintonizaria como mestre e contei essa história. Eu estava tão maravilhado com a experiência que nem me toquei que o tal mestre de Reiki poderia se sentir ofendido com a desmistificação do seu teatrinho, ou melhor, do seu ganha-pão.

Na minha ingenuidade, eu acreditava que ele ficaria feliz em saber que a coisa era muito mais profunda do que ensinar meia dúzia de símbolos considerados sagrados para incautos “aprendizes de feiticeiros”. Porém, ele ficou extremamente furioso e até hoje não fala comigo. Acho que também ficaria como ele se contasse desesperadamente com cinco mil reais caindo na minha conta corrente para ensinar para um paspalho um símbolo que se parece com um raio e dizer que, a partir daquele momento, ele estava iniciado para ludibriar outros paspalhos com a história de símbolos sagrados para se enviar energia.

Perder cinco mil reais por causa de um espírito que aparece para um médium e o faz ir ao encontro de alguém que estava se preparando emocionalmente para jogar cinco mil reais fora é uma prova de desapego material que poucos reikianos estão preparados para passar.

Acabei de me lembrar que nunca agradeci o médium por ter ido ao meu encontro, aceitando cumprir essa orientação que o espírito lhe passou.

Após esse primeiro contato, nós combinamos a realização de reuniões mediúnicas semanais, coordenadas por este espírito, para eu conhecer outros amigos incorpóreos que se manifestaram sempre através do mesmo médium (índios, pretos-velhos, orientais, crianças etc.) e aprender outras técnicas para a realização do meu trabalho como “médium de cura”.

Com esse pessoal incorpóreo aprendi cromosofia (o envio de energia através da mentalização de cores), meditação em movimento e também formas de induções para relaxar o paciente e realizar o tratamento bioenergético. Estas induções poderiam ser realizadas também em atendimentos coletivos, algo que passei a fazer com freqüência com portadores de deficiência física, com idosos etc.

Como os espíritos me davam total liberdade para inventar nomes, chamei essa técnica de “indução animagógica”.

Eu já havia criado o nome Animagogia em 2003. Com essa palavra eu buscava identificar o processo metanóico, ou seja, de mudança de sensibilidade, no qual o egoísmo é finalmente superado para dar lugar à vivência do amor universal. Algumas pessoas acreditam que Animagogia é uma nova doutrina. Nada mais equivocado. Essa palavra identifica apenas um processo que pode acontecer de várias formas, por exemplo, quando se vivencia uma Experiência de Quase-Morte (EQM).

Em agosto de 2007 tive uma agradável surpresa ao fazer na cidade de Ribeirão Preto um curso de Hipnose. O único problema foi ter que desembolsar mais de mil reais na época. Tirando a parte financeira, o curso me ajudou a compreender que a “indução animagógica” nada mais era do que uma técnica similar à Hipnose.

Porém, se não há diferença no procedimento, há muita nos pressupostos teóricos. Por exemplo, eu tenho conhecimento da intervenção da espiritualidade durante todo o atendimento ao paciente. Sei também que a indução para o paciente entrar no estado hipnótico necessita da bioenergia emitida pelo atendente. Esses dois processos são ignorados pela maioria dos hipnólogos que conheci. Aliás, quando se fala na existência de espíritos e que estes são capazes de se comunicar conosco, já acham que estamos misturando hipnose com religião. Mas não tem problema, um dia vão descobrir que eles também são espíritos eternos, mesmo aqueles que se dizem ateus.

Possivelmente, foi por esse motivo que a espiritualidade permitiu que eu chamasse essa técnica de “indução animagógica” e nunca usou o termo hipnose em nossos encontros mediúnicos. Obviamente que não foi por acaso que fui fazer aquele curso em Ribeirão Preto, mas, quando fui fazê-lo, eu já possuía uma relativa bagagem com a mediunidade para separar o “joio” do “trigo” e não precisar brigar também com os hipnólogos. Como os reikianos, aqueles também são contra o atendimento gratuito. Felizmente, eu não uso Hipnose e sim uma técnica similar transmitida pela espiritualidade e que chamei, por ser o “canalizador” da mesma, de indução animagógica. Assim, posso continuar meu trabalho de divulgação da Terapia Vibracional Integrativa (TVI) sem preocupações e ensinar gratuitamente a “minha” técnica.

É importante ressaltar que a TVI não é um novo nome que dei para o Reiki, como alguns chegaram a pensar. A TVI é uma técnica na qual se envia bionergia para o paciente usando mentalmente o poder das cores e diferentes induções animagógicas para se trabalhar auto-estima, ansiedade, perdão, fobias etc., sem a necessidade dos símbolos e outros rituais próprios do Reiki.

Em março de 2008 esse trabalho espiritualista completará sete anos de existência. E como normalmente muitos ciclos evolutivos acontecem de sete em sete anos, possivelmente o ciclo de desenvolvimento da técnica se encerrou para que se inicie, em breve, o da sua difusão mais ostensiva, se Deus quiser!

 

São Carlos, 06 de março de 2008.

Adilson Marques

sobre Apometria

recentemente ministrei um curso em São Carlos denominado Introdução às psiconomias contempôraneas. Por psiconomia estou entendendo as formas organizadas e racionais de intercâmbio mediúnico. No curso, estudou-se a psiconomia espiritista, a umbandística e a apometria. Por essa ser a menos conhecida, apresento aqui a transcrição do que foi abordado no curso.

 

A apometria não é religião, filosofia ou ciência, apenas uma técnica medianímica para tratamento de casos de obsessão espiritual. A técnica foi sistematizada pelo médico espiritista Dr. José de Lacerda há aproximadamente 50 anos. Ou seja, em um período de 150 anos tivemos o surgimento da doutrina espírita, da Umbanda e da Apometria. Apenas alguns fanáticos religiosos não conseguem enxergar a relação recursiva e dialógica (não confundir com dialética) que existe entre a filosofia espírita, a religião umbandista e a técnica apométrica.

Apesar da Apometria ser apenas uma técnica e, portanto, possível de ser praticada em centros espiritistas, de umbanda, universalistas, independentes etc. ela possui uma filosofia que a sustenta. Apesar da técnica não negar a doutrina espírita, ao contrário, ajudando a comprovar empiricamente alguns ensinamentos, entre eles, que ninguém morre antes da hora e que antes de encarnar escolhemos um gênero de provas, a Apometria se fundamenta em uma filosofia universalista, bebendo das fontes orientais, principalmente dos ensinamentos de Krishna. São nestes ensinamentos que vamos compreender a concepção de Ego, o conceito fundamental para se atuar conscientemente com a Apometria.

sobre Apometria (continuação)

A definição de Ego adotado nos Vedas é diferente daquela comumente difundido pela psicanálise e até por doutrinas espiritualistas como a Teosofia e por pensadores independentes como Waldo Vieira. Nos ensinamentos de Krishna, o Ego é conceituado como uma consciência provisória a qual o espírito se liga para uma nova encarnação. Vamos exemplificar, não existe um espírito chamado Adilson, que é brasileiro, professor, branco etc. Tudo isso compõem o Ego. Enquanto eu acreditar nessas verdades, estarei sob o domínio do Ego. Obviamente que não tenho como deixar de viver o personagem Adilson enquanto estiver encarnado, mas posso viver esse personagem sem acreditar nele. Em suma, podemos dizer que estou Adilson, estou brasileiro, estou branco... Mas não sou o Adilson, não sou brasileiro e não sou branco. Eu sou um espírito eterno que está momentaneamente com sua consciência real velada. A única coisa que tenho condições de saber do espírito é que ele brilha, mas não é luz, já que a própria luz é um fenômeno material.

Há um aforismo oriental que diz assim: o Ego e o Espírito coabitam como dois pássaros em uma árvore. O primeiro saboreia os frutos doces e azedos da árvore da vida enquanto o outro tudo contempla admirado e em paz. Notem a forte relação com o mito da caverna de Platão. O espírito não se alimenta dos frutos da árvore da vida, ou seja, das vicissitudes. Ele apenas contempla o que seu personagem está vivenciando. Quem passa por momentos negativos e positivos, agradáveis e desagradáveis é o Ego, nossa consciência provisória, criada em função do gênero de provas que o espírito escolheu antes da encarnação.

O espírito humanizado consciente ou iluminado age sempre com equanimidade, sem perder sua paz interior, não importando o que acontece em sua vida humanizada. Esse também é um ensinamento de Buda. Certa vez, um discípulo que se encontrava triste por se sentir ofendido pelas pessoas procurou o Buda. Este lhe ensinou que ninguém é capaz de ofender o outro. Somos nós que permitimos nos sentir ou não ofendidos. E Buda lhe conta uma historia singular, afirmando que em uma das 500 encarnações das quais se lembrava de ter vivido, um paxá resolveu matá-lo. Como já tinha adquirido a consciência de que ele não era aquele personagem, não sentiu medo e nem ofereceu qualquer resistência. Assim, apesar de ter sido assassinado a golpes de espada, ele conta que desencarnou tranqüilo, sem sentir ódio ou qualquer sentimento negativo pelo paxá, continuando na condição de espírito sua jornada evolutiva.

Ter essa consciência de que o Ego não é o Espírito torna a Apometria uma técnica muito útil nesse momento de regeneração da Terra, pois os espíritos (desencarnados) que estão no chamado “umbral”, uma criação mental enfermiça, só se encontram ali por não terem se libertado do Ego. A literatura espírita (escrita por desencarnados) é rica em exemplos de desencarnados presos ao Ego. O que demonstra que não basta desencarnar para a consciência espiritual ser recuperada. O desencarnado preso ao Ego continuará acreditando no personagem que acabou de representar. Por exemplo, se ele vivenciou o Ego de um alcoólatra, vai continuar dependendo do álcool enquanto não se libertar desse “sonho”, o que morreu cego, continua acreditando que é “cego”, mesmo depois de morto, o evangélico que acredita que após a morte vai dormir até o dia do juízo final, ficará brigando com aqueles que tentam acordá-lo etc. Sem uma mudança consciencial, ou seja, sem a libertação do Ego, o espírito continuará hipnotizado pelas características de seu último personagem, mesmo estando desencarnado.

É justamente por ignorar ou não aceitar os ensinamentos védicos que encontramos artigos espiritistas como o produzido pela Casa de Eurípedes — Hospital Espírita Eurípedes Barsanulfo, de Goiânia (GO), amplamente divulgado em sites e listas espiritistas de discussão na internet, sob o título: “apometria não convém às casas espíritas”.

Muitos espiritistas não conseguem compreender como a Apometria pode tratar casos graves de obsessão em uma única sessão, quando, no centro que freqüentam, são necessários meses ou anos de doutrinação do espírito.  

Por não fazer parte do corpo doutrinário do espiritismo, é comum constatarmos muitos espiritistas confundindo o Ego com o Espírito, acreditando que encarnar é somente ligar-se a um novo corpo físico. Porém, mais importante do que se ligar a um corpo, é o fato do Espírito eterno se ligar a uma nova consciência provisória, criada para as provações escolhidas por ele quando gozava de sua consciência plena. Assim, como já salientamos, é o Ego que se alimenta dos frutos doces e azedos da árvore da vida. E como já afirmamos, não basta desencarnar para se libertar do Ego. Freqüentemente são publicados livros espíritas onde o desencarnado necessita plasmar no mundo espiritual os objetos que utilizou na Terra devido aos apegos que estão registrados em sua mente. Talvez o mais famoso livro do movimento espiritista chama-se “violetas na janela”. Neste livro a protagonista da história precisa ter seu guarda-roupa inteiramente plasmado na colônia onde reside, demonstrando que os espíritos apegados à matéria reproduzem exatamente a vida que aqui levavam. Em suma, apesar de desencarnados, são espíritos que ainda se encontram humanizados, ou seja, ligados ao Ego.

Sem o apoio das filosofias orientais, não conseguiríamos compreender que o mundo exterior não está fora, mas dentro de nossa mente (Ego), e que tanto o mundo material como o que chamamos de mundo espiritual (colônias, umbrais, vale dos suicidas etc.) são criações mentais, uma vez que, essencialmente, só há um único elemento: o fluido cósmico universal.

sobre Apometria (continuação)

Enquanto muitos livros espiritistas materializam o mundo espiritual, quem deseja trabalhar com a Apometria precisa fazer o caminho inverso e, de forma responsável e realmente libertária, aceitar, como ensinou o Buda, que todas as sensações, percepções, memória e formações mentais que temos são criações do Ego e não do Espírito. Este apenas pulsa AMOR e não é doente, egoísta, orgulhoso etc.

É justamente por não doutrinar o espírito obsessor, mas em buscar ajudá-lo a se libertar do Ego que a Apometria pode em meia hora de trabalho fazer com que um “ódio secular” seja superado. Vamos narrar ao longo desse artigo dois casos que demonstram a possibilidade desse processo acontecer. Mas, como salientamos, isso só é possível quando temos a consciência de que o espírito humanizado está preso ao Ego e não goza de sua consciência espiritual plena, esteja ele encarnado ou não.

É importante esclarecer que não consideramos errado o discurso espiritista dominante. Ou seja, o que materializa o mundo espiritual. Ele é importante para consolar o ser humanizado. Falei do livro “violetas na janela” que é um dos mais famosos livros espiritistas que fazem isso, porém, quantas pessoas não despertaram para a realidade espiritual através da leitura do mesmo? O fato de afirmarmos que essa visão do mundo espiritual seja limitada, não quer dizer que estamos afirmando que ela não presta ou que esteja errada. Os livros espíritas são importantes para consolar aquele espírito humanizado que “perde” um familiar, fazendo com que ele aceite que a vida continua após a morte física. Porém, essa é apenas uma etapa. Após o consolo deve ter inicio a verdadeira batalha: o libertar-se do Ego.

Em suma, a Apometria não serve para consolar ninguém. Seu foco é ajudar o Espírito a se libertar das ilusões presentes em sua mente, resgatando sua verdadeira consciência espiritual. É por não entender ou aceitar esse processo que os pesquisadores que escreveram o artigo acima citado afirmaram que despertar o Espírito através de uma regressão de memória “colide com a razão”. Obviamente que este processo colide com a razão espiritista e não com a Razão. Durante vários anos de atendimentos apométricos acompanhamos o caso de vários espíritos desencarnados, porém humanizados, que se libertaram e perdoaram seus algozes graças ao recurso da regressão de memória.

Esse processo não seria tão difícil de ser compreendido, caso o movimento espiritista passasse a aceitar o ensinamento presente em O Livro dos Espíritos que afirma o seguinte: antes de encarnar, enquanto goza de sua consciência espiritual plena, o Espírito escolhe um gênero de provas. Em resumo, só existe o mundo espiritual. Só este é Real. O mundo material só existe em função do gênero de provas escolhido, assim como a forma física (homem ou mulher, preto ou branco, gordo ou magro etc.), as percepções, as sensações, as formações mentais etc.

E isso não deveria ser novidade para um espiritista. Quem leu as obras de André Luiz já deve ter lido o que ele escreve sobre a preparação do espírito que encarnará para representar o papel de médico na Terra. O seu sistema nervoso é cuidadosamente construído para que ele consiga vivenciar as vicissitudes de sua prova. Podemos, a partir dessa informação, deduzir que isso vale para toda e qualquer prova, não importando se o Espírito vai representar o papel de artista, professor, advogado, político, bandido etc. Em função da escolha da prova, cria-se o cenário e o Ego mais adequado. E faz parte do jogo a consciência provisória, após a encarnação, controlar a vida humanizada do Espírito. Assim, ou este se liberta das verdades que o Ego criará ou, se acreditar nelas, vai se sentir ofendido quando algo desagradável acontecer, acreditará que está sendo agredido e ficará com raiva, guardará rancor e mágoa de alguém etc. O Espírito ligado ao Ego não percebe que está vivendo em uma realidade ilusória, representando um papel em um “teatrinho”, onde o diretor é Deus. Iludido, não toma consciência que sua vida material não passa de um filme produzido pelo Ego, projetado dentro de sua mente, como as sombras projetadas na caverna de Platão.

O espírito humanizado não se dá conta que todas as percepções, sensações, memória e formações mentais que vivência são criadas por sua consciência provisória. Assim, mesmo que este Espírito desencarne, mas continue preso a esse Ego, continuará vivenciando o mundo que está em sua mente. É por isso que ele vai para o “umbral”, para “colônias” etc. e vive como se estivesse ainda na “matéria”. É por isso que ele persegue aqueles que acredita que o ofenderam ou o prejudicaram. O Espírito que ainda se encontra iludido pelo Ego não se lembra que escolheu um gênero de provas e que vivenciou, exatamente, aquilo que escolheu. Em suma, não se lembra que seu livre-arbítrio foi totalmente respeitado por Deus e pelos Espíritos responsáveis em criar o seu “livro da vida”. Ainda preso ao Ego não compreende que ele recebeu exatamente aquilo que necessitava e merecia, além de ter sido instrumento para as provações de outros Espíritos humanizados.

sobre Apometria (continuação)

O trabalho apométrico bem sucedido é aquele que consegue, no final do atendimento, libertar o espírito humanizado dessa consciência provisória, fazendo-o acordar desse sono hipnótico em que se encontra. Para entendermos melhor esse processo, vamos imaginar um sonho em que estamos perseguindo alguém. Durante o sonho, sentimos raiva de alguém que nos engana, mas quando acordamos, tomando consciência que foi apenas um sonho, rapidamente nos libertamos daquela raiva que sentíamos por algo ilusório. Numa outra escala, é isso o que acontece com o espírito desencarnado que ainda guarda rancor e ódio de um outro. Quando ele desperta da ilusão vivenciada na Terra, descobre que não há mais motivo para manifestar tanto ódio.

É por isso que a prática apométrica não colide com a razão, mas colide com o Ego, que é a própria razão humanizada e programada para materializar o mundo espiritual, pensar o mundo ilusório da matéria por parâmetros egóicos: “certo” e “errado”, “bem” e “mal”, “superior” e “inferior” etc. Assim, preso ao Ego, nenhum Espírito é capaz de compreender (pois lhe falta um sentido) que Deus, a causa primária de todas as coisas, controla todo esse teatrinho que chamamos de “encarnação” a partir das escolhas realizadas anteriormente pelos próprios espíritos.

E a reforma íntima? Os pesquisadores de Goiânia afirmam que a Apometria ignora a reforma íntima. Será isso mesmo? Ou será que a Apometria ajuda a realizar a única “reforma íntima” possível que é a libertação do Ego? Em primeiro lugar, os pesquisadores não afirmam o que entendem por reforma íntima, um conceito que o espiritista J. Herculano Pires desconstrói em seu livro “Curso dinâmico de espiritismo”, mas que virou um chavão no movimento espiritista, reproduzido a torto e a direito em palestras e livros, sem que ninguém saiba o que isto signifique.

Assim, se entendermos por “reforma íntima” um trabalho interior, consciencial e voltado para a libertação das verdades criadas pelo Ego, não podemos dizer que a Apometria ignore esse processo. Libertar-se de suas verdades é o caminho para que possamos ressurgir como espíritos eternos, recuperando nossa consciência espiritual plena e, portanto, conscientes de que vivenciamos uma nova prova, uma nova expiação ou uma nova missão na Terra. Em outras palavras, ressurgir na carne é isso: vivenciar a vida humanizada com consciência espiritual. Quando isso acontece, o Espírito esclarecido não tem motivo nenhum para sentir ódio, já que passará a pulsar apenas AMOR, mas enquanto ele permanecer ligado à consciência provisória de sua última encarnação, ele sofrerá por causa dos apegos materiais, sentimentais e culturais. Ou seja, as raízes do sofrimento como ensinou o Buda.

 

Alguns estudos de caso

 

Abordaremos três atendimentos de apometria realizados em 2005 na cidade de São Carlos. Os dois primeiros vão nos ajudar a compreender como, em pouco tempo, o ódio secular pode se transformar em amor. O ultimo caso nos ajudará a aceitar que antes de encarnar o espírito escolhe um gênero de provas, comprovando, empiricamente, esse ensinamento presente em O Livro dos Espíritos.

 

Caso 1 – um jovem residente em uma cidade da Bahia procurou atendimento apométrico. Ele não quis ser atendido a distância e viajou até São Carlos, no interior do estado de São Paulo, para ser atendido. Com a abertura do trabalho, logo um obsessor foi pressentido e o mesmo se manifestou em uma das médiuns presentes no atendimento. Após manifestar seu ódio por seu algoz, ali presente, começamos o atendimento. Ele recebeu energia e foi submetido a uma regressão de memória. Nesse momento, ele já começa a mudar de atitude, pois diz se lembrar de uma encarnação onde ele havia prejudicado seu atual algoz. Ou seja, se antes ele se considerava a vítima, com a lembrança possibilitada pela regressão de memória passou a se ver como algoz. Inconformado com a lembrança, pergunta ao coordenador do trabalho se tal processo não terá mais fim, ora sendo vítima, ora sendo algoz. Ao ser informado que se eles se perdoarem e se amarem o ciclo doentio será extinto ele fica mais calmo e interessado no processo.

Com uma nova regressão de memória, ele se lembra de uma encarnação na Idade Média onde foram irmãos. Ele relata que foi o responsável pelo desentendimento que tiveram, traindo a confiança daquele que hoje ele obsediava. Ele relata também que foi a partir daquela encarnação que começou o ciclo de ódio entre os dois, mas demonstra arrependimento por ter sido ele o detonador do processo.

Com essa nova consciência, ele começa a chorar e a pedir perdão para o irmão. Incorporado à médium, pede para que o irmão o abrace. Este atende ao pedido e não só afirmou que perdoava como também gostaria de ser perdoado pelos erros do passado.

Em suma, em cerca de 45 minutos de atendimento, um ciclo doentio de ódio que há séculos se arrastava foi encerrado.

sobre Apometria (conclusão)

Caso 2 – a família de um jovem alcoólatra pede ajuda para o filho. Explicamos a ela como funcionava a apometria e não prometemos nenhuma cura para o alcoolismo do filho. Possivelmente, algum espírito que o acompanha poderia ter merecimento para ser ajudado. Porém, era papel do filho lutar interiormente para se libertar do vício.

Aberto o trabalho, logo se manifesta um espírito que usava o rapaz como “caneco vivo”. O espírito se diz alcoólatra e incapaz de viver sem bebida. Por depender do encarnado para saciar o vício, não queria que ajudássemos o rapaz.

Após acalmá-lo, fizemos uma primeira regressão de memória e uma revelação foi desconcertante. O espírito afirmou que ele era pai de um rapaz alcoólatra e que não amou o filho, abandonando-o por este não ter forças para superar o vício. Ele afirmava que naquela encarnação tinha muita vergonha do filho, que considera um “fraco”. Arrependido, pediu para vencer o vício em sua encarnação seguinte. Por isso, ele também se tornou um viciado, um alcoólatra. Ele disse que queria provar que era fácil vencer o vício, mas fracassou. Por isso, após o desencarne, ficou vagando atrás de algum encarnado alcoólatra que o ajudasse a saciar seu vício.

Porém, o mais emocionante de seu discurso foi quando ele tomou consciência que o rapaz que ele utilizou para ser o seu “caneco vivo” era o mesmo espírito que em outra encarnação foi o seu filho, abandonado por ele. Por alguma lei de afinidade, a providência divina fez com que ele encontrasse para ser o seu companheiro de vício justamente aquele espírito que ele, no passado, considerava um “fraco”. Com essa nova consciência ele começa a chorar, demonstrando arrependimento pela falta de amor e diz que quer ardentemente corrigir esse erro. Ele passou a dizer que errou duas vezes com o mesmo espírito, quando o abandonou em outra encarnação e agora, ao usá-lo para saciar o vício.

O Espírito foi orientado para aceitar que nada disso aconteceu por acaso e que ele precisaria, naquele momento, se autoperdoar. Somente assim ele poderia iniciar uma nova etapa em sua vida, corrigindo esses erros. Mais calmo e feliz foi conduzido pela espiritualidade para continuar sua recuperação no Astral.

 

Caso 3 – Em um trabalho apométrico se manifesta um bombeiro que havia sido morto por um bandido. Ele se mostrava agoniado e não parava de chorar. Não era a morte que o incomodava, mas o fato de ter deixado dois filhos pequenos. Ele dizia que tinha morrido antes da hora, que ainda precisava cuidar dos filhos. Após receber energia para se acalmar, fizemos uma regressão de memória, pedindo para que ele se lembrasse de quando escolheu seu gênero de provas. Em poucos segundos, ele começou a pedir perdão a Deus por sua falta de Fé e nos contou que aqueles dois espíritos que vieram a ser seus filhos precisavam ficar órfãos na infância. Ou seja, como espírito ele sabia que teria que desencarnar na hora que desencarnou, mas como não se lembrava disso, ficou preso às verdades do Ego que lhe dizia para sentir pena dos filhos. Ao recuperar sua consciência espiritual, deixou de ver filhos para ver dois irmãos espirituais em provação.

 

Observação – várias vezes tentei fazer esse processo com encarnados, pedindo para que o paciente, durante a regressão de memória, buscasse a lembrança do momento em que escolheu um gênero de provas. Porém, nunca obtive resultado positivo. Esse recurso, possivelmente, só é permitido pela providência divina para ser realizado com desencarnados.

 

Conclusão

 

Como salientamos, a Apometria é uma técnica para ser usada em casos de obsessão. Apesar de não ser ciência, filosofia ou religião, alguns pressupostos são importantes para se compreender a técnica e a utilizar com consciência:

- somos espíritos vivenciando experiências humanizadas;

- o mundo espiritual é o mundo Real, que preexiste ao material, palco das provações escolhidas voluntariamente pelos espíritos;

- para acontecer a encarnação, o espírito se humaniza, ou seja, liga-se a um Ego, uma consciência provisória criada para aquela experiência humanizada;

- o objetivo da encarnação é colocar em prática o amor universal, sem condicionar o amor ao próximo;

- as provas são sempre morais (vencer o orgulho, a vaidade, o apego material etc.) e nunca material (construir hospitais, tocar um instrumento, escrever livros, cuidar do meio ambiente etc.).

- A caridade para quem atua com apometria é ser benevolente, indulgente e perdoar as ofensas. Em suma, a caridade é uma atitude espiritual e não ação exterior (atos materiais).

 

  

Evolução humana e iluminação espiritual

 

Adilson Marques – asamar_sc@hotmail.com

 

Se você deseja evoluir como ser humano

Há vários caminhos para você escolher:

 

São vários os cursos universitários para se fazer;

São várias as profissões para se ganhar dinheiro;

Há uma infinidade de religiões para serem freqüentadas

E de doutrinas para serem idolatradas.

Muitos times de futebol você pode decidir com qual deles

Vai se sentir eufórico nas vitórias e revoltado nas derrotas.

Em suma, para sua evolução humana há um leque infinito

De possibilidades.

Assim, use e abuse do seu livre-arbítrio para evoluir

Como Ser Humano.

 

Porém, se você deseja trilhar o caminho

Da Iluminação Espiritual,

Só há uma única opção a seguir:

A prática do amor universal.

 

 

São Carlos, 01 de março de 2008

 

Vida e existência: a dimensão espiritual das pesquisas com células-tronco

 

 

Novamente cientistas, políticos e a sociedade civil brasileira discutem se as pesquisas com células-tronco (CTs) devem ser ou não liberadas. Apesar de não ser levada em consideração, há uma dimensão espiritual por trás desse polêmico assunto, e esse processo não é moral ou religioso.  Do ponto de vista espiritual, e não importa qual seja o tema abordado, a questão é sempre a mesma: com qual intenção alguma coisa está sendo feita pelos espíritos humanizados, ou seja, pelos seres humanos?

Quem leu O Livro dos Espíritos deve ter encontrado por diversas vezes Allan Kardec perguntando se isso ou aquilo era “certo” ou “errado” e a resposta dos espíritos era sempre a mesma: “Deus julga a intenção e não o fato”. Até no caso do suicídio, os espíritos deixam claro que a intenção ou a vontade em cometer é o importante na contabilidade espiritual daquele ser e não o ato em si.

Logo, o mesmo argumento vale para as pesquisas com CTs. Se observarmos os diferentes discursos, constataremos que há grupos de pesquisadores e empresas interessadas apenas em ganhar muito dinheiro com suas descobertas. Estes afirmam que essa será a indústria das próximas décadas (como se falava na década de 1990 da Ecologia), nas quais as pessoas poderão planejar e escolher a cor dos olhos dos filhos, o tipo de cabelo que terão, o a cor da pele etc. Nota-se, nesse caso, o egoísmo, o apego material, a vaidade como o nutriente para tais pesquisas. Porém, há outros grupos que acreditam que tais pesquisas serão úteis para se tratar uma infinidade de doenças como o mal de Parkinson, o mal de Alzheimer, entre outras. Em suma, da mesma forma como as cirurgias plásticas podem tanto ser utilizadas para recuperar a estima e o corpo de alguém que passou pela prova ou expiação de ter sido queimado em um incêndio ou para lustrar ainda mais a vaidade e o egoísmo de muitos que se encontram apegados à aparência física, o mesmo vai acontecer com as CTs.

Espiritualmente falando, a vida é uma só. Ela teve inicio na criação da mônada espiritual há milhões de anos e esta vai se iluminando ou se libertando do Ego ao colocar em prática, ao longo das inúmeras existências, ou seja, dos ciclos de nascimentos e mortes, o amor universal. Todo o resto é ilusão, incluindo as pesquisas que os espíritos humanizados fazem com as CTs.

Em primeiro lugar, o ser humano não descobre (tira o véu) nada antes da hora prevista e programada no mundo espiritual para acontecer na Terra. Tudo o que aconteceu no Passado, acontece no Presente ou acontecerá no Futuro tem uma razão para acontecer. Tudo está perfeito, acontecendo na hora e da forma como tem que acontecer. Nesse sentido, também as doenças e suas curas nunca surgem por acaso. Elas são sempre possibilidade de aprendizagem espiritual (animagogia), servindo como instrumento de prova ou expiação para os espíritos humanizados. Em resumo, os mundos de provas e expiações, como é o caso ainda da Terra, são mundos de intencionalidades. Ou seja, o que vale para o espírito é a intenção ou, em outras palavras, a atitude sentimental com que os atos materiais são vivenciados.

Vários espíritos comunicantes afirmam que muitos daqueles que não forem exilados para orbes inferiores após o desencarne, merecendo, assim, vivenciar suas futuras existências na Terra, ainda precisarão passar por encarnações difíceis. Na Terra, eles serão assistidos e tratados com os novos conhecimentos advindos com as pesquisas com CTs e outras que ainda virão.

Em resumo, as pesquisas irão acontecer de uma forma ou outra e o ser humano poderá, nas próximas décadas, utilizar as CTs para reconstruir fígados, corações, pulmões e outros órgãos materiais ilusórios, pois como afirma o espírito que se identifica como Pai Joaquim de Aruanda, usando a postura de Preto-velho, o que diferencia um órgão material do outro é sua vibração eletromagnética, já que todos são derivações de uma mesma fonte: o fluido cósmico universal.

Assim, o que conta espiritualmente no caso destas pesquisas é a intenção com que os pesquisadores e os donos de laboratórios estão vivenciando esse teatrinho. Ou seja, como representam o papel de cientistas ou de mecenas, pois tudo está acontecendo na hora que tem que acontecer e da forma como precisa acontecer.  Os instrumentos para descobrir (tirar o véu) tais conhecimentos já foram escolhidos por Deus há muito tempo, muito antes de encarnarem, e vão passar na prova se fizerem suas pesquisas com amor ou vão perder mais uma existência se a motivação de seus atos for egoísta.

 

São Carlos, 02 de março de 2008.

 

todos os artigos podem ser divulgados por qualquer meio.

Crianças geniais: uma terceira visão

 

 Adilson Marques – asamar_sc@hotmail.com

 

A revista Universo Espírita, em sua edição número 49, apresenta um artigo abordando a questão das “crianças geniais”, ou seja, “superdotadas”. O artigo questiona a visão materialista que explica o fato através de uma suposta herança genética e defende o seguinte ponto de vista: “as grandes capacidades e habilidades só podem ter sido treinadas em vidas passadas”.

Apesar dessa visão ser a dominante no movimento espiritista (lembrando apenas que uso o adjetivo espiritista para designar tudo o que vem dos adeptos da doutrina espírita e, este ultimo adjetivo, para designar somente o que vem dos espíritos, ou seja, dos seres incorpóreos) podemos pensar essa problemática a partir de um outro enfoque e sem abandonar os ensinamentos da doutrina espírita.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente a questão numero 258 de O Livro dos Espíritos na qual aprendemos que antes de encarnar o espírito escolhe um gênero de provas para vivenciar na Terra. E as provas são sempre morais, ou seja, pode ser vencer o orgulho, a vaidade, o ciúme, a inveja etc. e não materiais (fazer descobertas, criar hospitais etc.).

Em segundo lugar, devemos nos lembrar que o mundo espírita (ou dos espíritos) é mais importante que o material, pois aquele pré-existe e sobrevive a este, como encontramos na questão 85. E, por fim, não devemos nos esquecer que as situações materiais são criadas por Deus para que a prova seja vivenciada, uma vez que, de acordo com a questão número 132, o espírito encarna para chegar a perfeição e também para executar a sua parte na obra da Criação, em suma, ser instrumento para as provas dos demais espíritos humanizados.

Após esse prolegômenos, acredito que todos que se dizem espiritistas aceitam a informação que não faz sentido acreditar que o espírito encarna para aprender alguma coisa na Terra. A vida real do espírito acontece no mundo espírita e ele vem aqui para colocar em prática o que lá aprendeu, em suma, que deve amar universalmente.

Nesse sentido, aquele espírito que vivencia uma personalidade estigmatizada como “criança genial” pode ser também um espírito em prova. E este pode ter escolhido vencer a “vaidade” ou o “complexo de superioridade” por exemplo e, a partir dessa escolha, sua personalidade provisória terá a forma de uma “criança genial” ou “superdotada”. E seu ego (consciência humanizada) vai, com o passar do tempo, sendo condicionado para a prova que o mesmo escolheu antes de encarnar. Ao mesmo tempo, mesmo estando criança, ele é instrumento para a prova dos demais. Por exemplo, os pais podem ter escolhido vencer o orgulho; os irmãos, vencer o ciúme e, os amigos da escola, vencer a inveja. Em suma, enquanto o espírito está representando o papel de “criança genial”, ele e todos que convivem com ele estão vivenciando provas morais.

O movimento espiritista acredita que existe uma relação de continuidade entre uma personalidade e outra vivenciada pelo espírito na Terra, o que não é verdade. Aliás, o melhor livro sobre esse assunto é o “Muitas Vidas, Muitos Mestres”, de Brian Weiss, que não é nem um livro espírita (escrito por desencarnado) e nem espiritista (escrito por um adepto da doutrina espírita). Nas mais de 15 encarnações narradas por sua paciente podemos perceber que cada personalidade é independente e tem suas próprias idiossincrasias. Para quem desconhece o livro, a paciente, na existência atual, é uma pessoa que poderia ser identificada como “medíocre”. Porém, em uma de suas existências passadas, ela demonstra uma habilidade filosófica e de raciocínio que surpreende o psiquiatra, autor do livro.

Partindo dessa premissa, podemos dizer que o mesmo espírito que vivencia a personalidade de “criança genial” na atual existência pode, na seguinte, vivenciar a de uma “criança debilóide”. Tudo dependerá do gênero de prova escolhido. Ser muito “inteligente” ou muito “burro”, ter facilidade ou dificuldade para aprender coisas do mundo material, ou seja, ilusórias,  vai depender sempre da prova escolhida. Saber várias línguas, por exemplo, é algo material e não espiritual, já que o espírito se comunica através do pensamento. Saber música também é algo material. Mas o amor ou a vaidade é algo espiritual. Nesse sentido, ser um "grande" compositor também pode ser uma grande provação.

Em suma, quando aceitamos que o mundo espírita é o real e não o que hoje vivenciamos, podemos compreender que o espírito é como um ator. Em cada encarnação ele representa um papel. E a variedade de papéis é o que menos importa, desde que ele coloque em prática o amor universal e vença o egoísmo, a raiz de todos os males, como aparece na questão 913.

Para encerrar, lembremos que a verdadeira visão espírita dessa problemática não é a que foi apresentada no artigo, mas é a que está presente em O Livro dos Espíritos, na questão 373, que nem foi citada pela autora do artigo.  Nesta questão aprendemos que o homem de gênio, quando abusa dessa faculdade (ou seja, quando deixa de amar para vivenciar sua vaidade, seu orgulho, seu egoismo etc.) pode, na encarnação seguinte, viver o papel de idiota. Em suma, a “superioridade intelectual” não passa de mais uma prova para o espírito e não algo treinado em vidas passadas.

 

São Carlos, 30 de janeiro de 2008.

 

Adilson Marques

Habilidades espirituais I: O perdão

  

A partir de hoje iniciarei uma série de artigos sobre habilidades espirituais. Ou seja, enfatizando quais seriam os valores espiritualistas que devemos vivenciar em nossas atitudes na Terra. Hoje, abordaremos o perdão.

O perdão é a essência dos ensinamentos de Jesus. Questionado por um dos seus discipulos, Jesus afirma que devemos perdoar o outro setenta vezes sete vezes. Ou seja, não há limites para se perdoar.

E há vários caminhos para se atingir esse fim, desde caminhos mais empíricos até aqueles mais abstratos. Entre os caminhos empíricos está aquele que considera um dever perdoar o outro, não importa o que este faça. Um comerciante que engana e rouba um consumidor, um eletricista que deixa de fazer o serviço contratado, um médico que deixa de fazer um diagnóstico correto ou até o marido que possui várias amantes. Em suma, não importa o que o outro faça, não julgar e perdoar é uma habilidade espiritual que precisa ser exercitada. Obviamente que, mesmo perdoando, ninguém precisa continuar consumindo os produtos daquele comerciante, contratando o serviço de um eletricista que age de má-fé ou do médico irresponsável. E, muito menos, tolerando um marido promíscuo. Em suma, não devemos nos ofender ou brigar com o lobo que come galinhas, pois essa é a sua natureza; mas ninguém é obrigado a colocar um lobo para cuidar de um galinheiro.

E entre os caminhos abstratos, está aquele que diz que tudo é criação de Deus. Assim, o comerciante e o eletricista são instrumentos de Deus para enganar quem precisa ser enganado, assim como o médico e o marido promíscuo. Este seria, por exemplo, o instrumento de Deus para trair quem precisa ser traído. Dentro desse ponto de vista, nem existe comerciante, eletricista, médico ou marido.... Tudo é ilusão.

Apesar de não concordar com ele, o caminho abstrato é o mais fácil para se chegar ao perdão. Condicionados pelos valores judaicos e cristãos, acreditamos que existe um velho de barbas brancas nos observando e nos punindo diuturnamente. Assim, é mais fácil acreditar que Ele usa o outro para nos castigar ou nos ensinar a perdoar. Esse ponto de vista é mais confortante. Tanto o outro como nós mesmos deixamos de ser responsáveis pelos atos e tudo recai sobre as costas de Deus.

Vamos imaginar uma jovem de 14 anos sendo estuprada e morta por um maníaco sexual. Enquanto creditarmos ao maníaco a culpa pelo ato, dificilmente o perdoaremos. Mas se pensarmos que só Deus é real e Ele criou uma realidade ilusória onde não existe estupro, não existe assassinato, não existe vítima ou algoz; e que tudo isso foi criado para que eu me desligue dessa ilusão e ame Deus e sua ação, obviamente que, aceitando esse argumento abstrato, será mais fácil perdoar o maníaco, pois passo a aceitar que nem ele existe, pois ele não é real dentro desse ponto de vista.

Porém, se eu acreditar que vivo em um mundo onde o “bem” e o “mal” convivem lado a lado e, a qualquer momento posso ser vítima de pessoas egoístas, malevolentes etc., eu preciso estar preparado para perdoar. E se for cristão, agir como Jesus que perdoou seus algozes, dizendo que eles não sabiam o que estavam fazendo. Como cada um age de acordo com a sua natureza, eu terei que ser forte, espiritualmente falando, se algo desagradável como o assassinato de um filho acontecer. E não preciso nem pensar que eu merecia passar por aquele ato, passando a me culpar pelo ocorrido. Simplesmente basta ter plena consciência que tudo na Terra é impermanente e que estamos sujeitos às mais diferentes vicissitudes, sejam elas criadas por Deus ou pelo livre-arbítrio de um outro espírito humanizado. Nesse sentido, o perdão passa a ser um dever. Perdoando, eu deixo de julgar a ação do outro como errada. Apesar de partir de um ponto de vista diferente do meu, é a ação certa para o outro. E, por acreditar na vida eterna, prefiro morrer se for o caso, a matar, agindo como Sidarta quando ensina a um discípulo ofendido que, em uma de suas quinhentas encarnações das quais se lembrava, um paxá resolveu assassiná-lo e ele permaneceu calmo e sereno. O paxá picotou todo o seu corpo, mas ele em nenhum momento sentiu ódio ou ofendido pelo agressor, desencarnado tranquilamente e seguindo o seu caminho, agora como espírito, em paz. Em suma, não julgou o ato do paxá como certo ou errado. E nem precisou, para perdoar, de argumentos do tipo “Deus criou o ato, pois tudo é Deus”, “se você não perdoar, estará deixando de amar a Deus. O que aconteceu com você foi Deus te amando.”

Quando o perdão se torna uma habilidade espiritual, agimos como Sidarta, sem precisar jogar a responsabilidade de nossos atos ou dos outros sobre os ombros de Deus.

 

São Carlos, 24 de dezembro de 2007.

 

Deus não me deu procuração para julgar o outro

Recentemente as redes de TV mostraram imagens de centenas de adolescentes armados com pedaços de pau e de ferro perseguindo torcedores de uma equipe de futebol rival, no Rio de janeiro. Neste acontecimento, um jovem foi brutalmente assassinado e sua camisa ensanguentada era abanada do ar como se fosse um valioso trofeu.

Como ensina krishna, o sábio age com equanimidade diante de qualquer situação. Porém, como não se chocar diante de imagens tão fortes? Um caminho, que pode soar como conformista, é compreendendo que tudo não passou de uma realidade ilusória, ou seja, que aquele espírito que viveu a ação carmática de ser assassinado daquela forma precisava vivenciar essa experiência, por alguma razão que desconhecemos. Porém, se como afirmam os espiritualistas, Deus é onipotente, onisciente e onipresente, Ele sabia, com antecedência, que isso aconteceria, além de ter permitido e de estar presente nesse ato. Porém, ter essa compreensão nos leva a ser, necessariamente, conivente com a violência praticada? Para se amar a Deus, é necessário amar a violência, como se Ele fosse o responsável pela violência?

Jesus afirmou que o escândalo era necessário, mas ai de quem fosse o responsável por ele. Ou seja, os jovens que contribuiram para o desencarne do outro, foram instrumentos que Deus colocou no caminho daquele que precisava dessa provação, mas será que eles não são responsáveis pelo ato cometido? São apenas bonecos comandados por Deus? Ou será que Deus permitiu que tais espíritos cometessem o ato que desejavam em seu íntimo e apenas conduziu esse sentimento selvagem para quem necessitava recebê-lo, para que uma injustiça não acontecesse, uma vez que cada um "recebe o que necessita e merece", segundo várias doutrinas espiritualistas. 

Amar a violência ou ser conivente com ela é diferente de compreender sua necessidade em um mundo de provas e expiações como ainda é a Terra, onde ainda temos muitos resgates cármicos para vivenciar. Com tal compreensão, podemos optar em enviar energia amorosa, através de prece ou outra prática, para todos os envolvidos, ficar indiferente (já que tudo é ilusão mesmo) ou emanar mais energia negativa para o planeta, criticando, julgando ou condenando aqueles que foram os instrumentos dessa ação carmática ou sentindo pena daquele que desencarnou da forma como deveria desencarnar. Claro que toda essa reflexão só faz sentido para um espiritualista que acredita que há algum sentido ou aprendizado em tudo o que acontece em nossa vida humanizada ou, em outras palavras, que "nada é por acaso".

E essa reflexão nos leva, necessariamente, a uma outra, como Deus age? Aqui temos duas linhas de raciocínio, uma que vou chamar de noturna e outra que vou chamar de crepuscular. Essas duas se contrapõe a visão diurna, que é a sensorialista ou materialista. Essa não nos interessa nesse momento.

Em relação às demais, podemos dizer que a visão noturna é aquela que afirma que tudo é Deus e que apenas Deus age, sendo a ação humana ilusória ou irreal. Por sua vez, a visão crepuscular não difere muito, mas compreende que Deus age e permite também a seus filhos agirem, dentro de limites que não lhes tirem a responsabilidade por seus atos e não causem injustiças ou desequilíbrios no sistema.  Vou explicar melhor essas duas visões comparando, apenas por razões didáticas, o meu blog e o da Bruna surfistinha. O meu blog recebe cerca de 50 visitas mensais enquanto o outro, segundo uma revista, recebe 8 mil visitas diárias. Para a visão noturna, Deus é quem escreveu os dois blogs e é também quem os lê. Toda essa ilusão seria criada como prova para todos nós, que achamos que escrevemos alguma coisa ou que temos livre-arbítrio para escolher o que desejamos ler e criticarmos o que não gostamos. Em suma, enquanto Deus faz, nós, iludidos, acreditamos que fazemos alguma coisa, pensamos que somos Deus.

Porém, na visão crepuscular, Deus, por ser onipresente, está tanto no blog na Bruna surfistinha como no meu. E por ser onisciente, Ele sabe quem vai se interessar em ler o meu blog e que vai preferir ler o dela, mas não obriga ninguém a ler esse ou aquele. Ele deixa que cada um de seus filhos escolha o blog que melhor serve aos seus anseios, às suas preocupações e necessidades. Se 8 mil pessoas preferem entrar diariamente no blog dela e apenas 50 pessoas preferem entrar mensalmente no meu, não é culpa de Deus.

E aqui podemos discutir um outro assunto, e que dá título ao artigo: o julgamento. Tanto a visão noturna como a crepuscular afirmam que não devemos julgar o outro. E mesmo aqui, os argumentos são distintos. Na visão noturna, se eu criticasse o blog da Bruna Surfistinha, ou achasse que o blog dela é inferior ao meu etc. eu estaria criticando Deus e sua criação, uma vez que não existe nenhuma Bruna Surfistinha e nenhum blog. Tudo é ilusão, tudo é criação de Deus para nossas provas. Na visão crepuscular, porém, eu não vou criticar a Bruna Surfistinha por que ela, como um espírito humanizado, tem o direito de manifestar sua liberdade de expressão da forma como bem desejar e se conseguiu fazer um blog foi porque Deus permitiu; e é meu dever, como universalista, respeitar esse seu direito. Mas, nessa visão, foi ela quem escreveu, manifestando seus sentimentos e seus próprios pensamentos e não Deus. E não vou criticar porque acredito que Deus não me deu nenhuma procuração para julgar o outro e por acreditar que Ele é a justiça perfeita, administrando a vida humanizada de forma que cada um receba o que necessita e merece a cada momento, sem que precise obrigar alguém a fazer aquilo que não manifeste o menor interesse em fazer. Portanto, permitindo que cada um de seus filhos seja o responsável direto por seus próprios atos.

 

São Carlos, 17 de dezembro de 2007

O Tao da ecologia: compreendendo e vivenciando o não-lutar

“a virtude não luta e desse modo é irrepreensível” (Lao Tsé)

 

Entre as quatro virtudes apresentadas por Lao Tsé em seu clássico Tao Te King encontramos o “não-lutar”. Mas o que é “não-lutar”?

 

Sendo o Tao o princípio e o fim de toda existência, podemos compreender que Ele (Tao) está em nós, assim como estamos nele. Porém, na maior parte do tempo, o ignoramos. Assim, boa parte da humanidade pensa e age como se pudesse subsistir por suas próprias forças e que encontrará a felicidade através dos planos elaborados por sua própria vontade. E, nesse contexto, não importa se a pessoa é ecologista ou madeireiro, defensor do Mico-leão dourado ou destruidor de floresta. Ambos, ao agir, só encontram aflição e não se livram da
inquietude.

 

Nesse sentido, “não-lutar” é a transformação do ego pela abnegação e pela renúncia, o que não significa, de nenhuma forma, conformismo. Em outras palavras, como encontramos em nossa vida humanizada oposições e contrariedades (as vicissitudes positivas e negativas), nós temos que, a todo instante, exercer nosso livre arbítrio, ou seja, fazer uma escolha. Diante
das vicissitudes negativas podemos reagir com revolta, com o desejo de vingança, com ódio no coração etc. ou optar pelo “não-lutar”, que significa, justamente, optar pela paciência, pela indulgência e pelo perdão. Para Lao Tsé, a menor tentativa de realizar o “não-lutar”, já enriquece nossa vida interior ou espiritual.

 

Assim, o ecologista que se orienta pelo Tao, agirá sempre a partir de um sentimento de sincera benevolência, piedade, caridade e amor; porém, não só por aqueles que também defendem a natureza, mas, sobretudo, como aqueles que a destroem, pois compreende que o homem só pode retornar à Unidade (ao Tao) pelo amor universal.

 

Se permanecer acreditando no ego, não importa se está representando papel de ecologista ou de destruidor da natureza, esse espírito humanizado atribuirá a si uma importância maior do que realmente tem. O ego falseia nossos julgamentos e nos desvia do curso de nosso verdadeiro destino. Por isso, o “não-lutar” é a virtude que nos ajuda a compreender que não passamos de uma minúscula engrenagem do Universo e nos ensina a agir sem ruídos ao redor de seu eixo particular. Viver o “não-lutar” não nos destrói nem nos suprime; ao contrário, mais nos vivifica e renova.

 

Como afirmou Lao Tsé: “Recém-nascido, o homem é débil e frágil. Morto, é rígido e duro. Ao nascer, plantas e árvores são tenras e flexíveis. Mortas, são rígidas e duras. Rigidez e solidez são companheiras da morte. Debilidade e fragilidade são companheiras da vida”.

 

Em suma, o ecologista que se abandona ao Tao, é como a água que espalha seus benefícios sem combate, sem exceção, desenvolvendo cada um segundo sua natureza. Por isso, o “não-lutar” é agir sem reconhecer qualquer direito para si, sem contestação ou repreensão e, na confusão dos apetites e ambições egocêntricas, viver sem desespero, não
criticando, não julgando, não condenando, uma vez que a real autoridade é aquela que exercemos interiormente sobre nossos pensamentos, sentimentos e instintos.

 

Os caminhos do “não-lutar” se abrem quando acolhemos de bom grado todos os
acontecimentos, sem exceção. Ou seja, até aqueles praticados pelos que destroem a natureza. E isso não é conformismo, mas a certeza de que tudo o que independe de nossa vontade está disposto para o nosso Bem. Todos os seres, todas as coisas, todas as circunstâncias são
mensageiros do Tao e contém um ensinamento moral. Por isso, o ecologista que segue o Tao age como São Francisco, que cuidava dos animais feridos, mas não criticava aquele que feriu o animal.

 

“Não-lutar” é uma luminosa experiência de vida que cria o desapego nas situações de
prosperidade e a paciência nas situações adversas, ou seja, respectivamente, nas vicissitudes positivas e negativas da vida humanizada, uma vez que tudo o que nos acontece tem uma função a preencher, mesmo que nem sempre consigamos compreender seu motivo. Daí a necessidade de viver com equanimidade (igualdade de ânimos) todos os momentos da vida humanizada. Esse pensamento é similar à epístola de Thiago quando afirma que o cristão é
sempre feliz, independente das situações vividas e pela Baghavad Gita, quando Krishna afirma que o Sábio diante de todas as coisas é sem paixão e, tendo provado do bem e do mal, não se regozija de um, nem se deixa vencer pelo outro.

 

É por isso que o ecologista que se pauta pelo “não-lutar” não faz discriminações nem exceções para ser benevolente. Ele vai praticar seus atos ecológicos ilusórios sem brigar com aquele que pratica atos não-ecológicos ilusórios. Ao contrário, quando motivados pelo ego, vamos desejar ser benevolentes com aqueles que fazem aquilo que consideramos “certo”, mas deixaremos de ser benevolentes com aqueles que acreditamos que praticam injustiça ou agem de má-fé, julgando que precisamos defender “nossos” direitos. Porém, o “não-lutar” dispõe de apenas uma única arma: o Amor. Por isso o não-lutar é renunciar a si mesmo (ao ego) para seguir o Tao em todas as coisas, não permitindo que outros sentimentos dominem nossa alma, tais como o ódio, o rancor, a revolta etc.

 

Também podemos compreender a essência do “não-lutar” em Madre Tereza de Calcutá, quando ela afirma que ser a favor da paz é muito diferente de ser contra a guerra. Motivado pelo Tao, estaremos sempre a favor da paz, não lutando contra absolutamente nada. A energia do meu trabalho fluirá com muito mais naturalidade e sem resistências quando eu deixar de lutar contra o madeireiro, contra o caçador de baleias etc. Além disso, o foco de atenção será outro. Não é mais a “guerra” e sim a “paz”.

 

            Enfim, como afirma um pensamento taoísta: “Sendo a vontade humana movida pelo egoísmo e pelo orgulho, suas obras aparentemente mais desinteressadas estão contaminadas pelo amor-próprio e viciadas por uma secreta pretensão a um direito autoral. O desapego com
relação ao fruto da ação e a espontaneidade da Suprema vontade são opostos aos cálculos de suas imitações, num paralelo que se poderia parafrasear da seguinte maneira: aquele que possui a Virtude nada premedita em interesse próprio; dia após dia, segue com confiança o itinerário traçado pela vontade do Tao; esquecendo o passado e não perscrutando o porvir, vive no presente em contato com o Eterno. Não age por si mesmo e muito menos para si
mesmo. Como poderia comprazer-se com a posse da Virtude, sabendo que é somente o canal e o dócil instrumento desta? Como poderia atribuir-se qualquer mérito por ações para as quais sua vontade pessoal tem tão pouca importância?”

 

São Carlos, 28 de novembro de 2007.




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